Regimes Próprios

RPPS no foco da JP Morgan

Edição 02

Após segregação de negócios com a Gávea, JP Morgan Asset quer entrar no mercado de regimes próprios com o foco voltado para a grade de renda fixa

Com a venda e o retorno de parte da Gávea Investimentos aos seus sócios fundadores, Arminio Fraga e Luiz Henrique Fraga, a JP Morgan Asset acabou ficando com algumas carteiras de renda variável e fundos imobiliários. Esses fundos, cujos principais clientes são institutos de previdência municipal, formam a base a partir da qual a asset americana traçou uma estratégia para implantar sua marca no segmento de regimes próprios de previdência, passando a oferecer além desses produtos também todos os outros que compõem o seu portfólio de investimentos.
A negociação que resultou na venda e no retorno de parte da Gávea aos dois primos que a fundaram em 2003, após Armínio ter deixado a presidência do Banco Central que ocupou pelos quatro anos do segundo mandato de FHS, só foi concluída no segundo semestre de 2015. Mas a segregação das equipes e produtos só aconteceu, efetivamente, a partir do início deste ano, quando começou a ser decidido quem ficava com o que. Como a Gávea tinha, e continua tendo, um foco em fundos estruturados, que permitem mais liberdade para implementar suas visões de mercado, as carteiras de renda variável e fundos imobiliários acabram ficando com a JP Morgan Asset. Contribuiu para isso o fato de ela fazer parte de um conglomerado global, com uma grade mais ampla e produtos de menor complexidade. “Com essa definição, vamos ter foco total nos RPPS a partir de 2016”, afirma André Cobianchi, responsável pelos clientes institucionais na JP Morgan Asset. O executivo explica que a Gávea já era bastante atuante no segmento de RPPS com os fundos de renda variável e a ideia é aproveitar essa base de clientes que está vindo para oferecer os fundos de bolsa adaptados à 3.922, e também os produtos de renda fixa. “Já havia sido aprovado internamente na gestora o investidor RPPS como um público-alvo e a operação com a Gávea serviu como um catalisador, diz o executivo.
Além de começar a atuar junto aos regimes próprios, Cobianchi destaca que as áreas de atuação oriundas da Gávea também passarão a ser oferecidas a toda a base de clientes da JP Morgan Asset, incluindo os fundos de pensão. A gestora, pelos dados do Top Asset, encerrou dezembro de 2015 com R$ 26 bilhões em ativos sob gestão. Desse volume, R$ 2,5 bilhões são provenientes de fundos de pensão e não há recursos de RPPS. Segundo Cobianchi, a renda variável e os fundos imobiliários provenientes da Gávea devem adicionar aproximadamente R$ 1 bilhão cada aos negócios da asset do JP Morgan.
Além dos RPPS, Cobianchi destaca que também serão migrados para a asset alguns distribuidores, como outros bancos, corretoras, family offices e fundos de fundos, que eram os principais cotistas de um dos fundos de renda variável sob gestão da Gávea. “Sem dúvida eles vão ampliar nossa rede de distribuidores”.

Historico – A gestora do JP Morgan comprou 55% da Gávea em 2010, com a opção de aumentar sua participação para 77,5% em 2013 e para 100% no final de 2015. “Desde o começo foi feita a compra do controle, ou seja, já tínhamos influência na tomada de decisões do negócio”, diz o profissional da JP Morgan Asset. No entanto, no ano passado os sócios fundadores da Gávea decidiram recomprar sua parte no negócio e ficar com os negócios originais que possuiam antes da venda de 2010, que são os multimercados e o private equity.
Após o acordo, e por sugestão da JP Morgan Asset, a Gávea ficou responsável pelas estratégias de renda variável e fundos imobiliários que agora foram incorporados ao seu portfólio, tanto em termos de equipe como de produtos. “A condição primordial para o negócio acontecer foi de ficarmos com esses dois negócios, incluindo a transferência da equipe de gestão, dos fundos e da base de clientes, mediante obviamente a concordância dos clientes”, explica Cobianchi. “Foi um acordo natural, já que cada um manteve as partes nas quais foram os mais responsáveis pela criação”. A única diferença que será percebida pelos clientes, afirma o executivo, será na nomenclatura dos fundos. Os valores para a recompra da Gávea não foram divulgados.

Decisão pessoal – Bernardo Carvalho, economista e sócio da Gávea Investimentos responsável pela relações com investidores, explica que a decisão de recomprar parte do negócio foi uma decisão pessoal dos sócios fundadores Armínio Fraga e Luiz Henrique Fraga. “A ideia deles é ter um foco maior nas duas áreas de negócios originais da Gávea. A intenção não é ser uma grande gestora com um leque grande de produtos, entendemos que isso faz mais sentido para o JP Morgan ou para os grandes bancos”. Os fundos multimercados, criados em 2003, ano de fundação da Gávea, seguirão geridos por Armínio e Gabriel Srour, e a área de private equity, criada em 2006, permanecem nas mãos de Armínio, Luiz Henrique e Amaury Bier. Em janeiro de 2016 o Patrimônio Líquido sob gestão da Gávea somava R$ 17,7 bilhões.
Armínio Fraga, que ocupou a presidência do Banco Central de 1999 a 2002, enxergava com ressalvas a possibilidade de assumir um cargo diretivo dentro da estrutura da asset do JP Morgan após a compra total da Gávea, à medida que isso o afastaria da gestão do dia a dia dos fundos multimercados, explica Carvalho. “Ele percebeu que não é essa a vontade dele, nem do Luiz Henrique. Eles gostam mesmo é de estar na linha de frente do negócio”, comenta o executivo. Segundo ele, “a relação entre as partes sempre foi boa, e nunca houve nenhum problema. Mas, quando o outro sócio é o controlador majoritário, ele inevitavelmente acaba tendo um papel relevante no negócio. As áreas de renda variável e de fundos imobiliários não serão, ao menos no momento, implementadas pela Gávea”.
Sobre a gestão dos fundos, o executivo da Gávea explica que, mesmo quando estiveram sob o controle da JP Morgan Asset, as estratégias de investimentos adotadas eram de total responsabilidade dos gestores da casa. A parceria entre as assets, explica, trouxe mais benefícios no lado operacional do negócio. “A gestão continua a mesma, não existe nenhuma intenção de mudar”. A segregação dos negócios entre Gávea e JP Morgan Asset inclusive permitiu à primeira reduzir parte de sua equipe operacional, como na área de compliance, uma vez que ela não precisa mais se integrar a uma plataforma global.
A base de clientes da Gávea não sofreu um impacto expressivo com a saída das áreas de renda variável e fundos imobiliários, até porque representavam uma parte pequena dentro do total sob gestão na casa. “Tanto nossos fundos multimercados quanto de private equity tem uma base diversificada de investidores, nacionais e estrangeiros”.