Multimercados

Institutos fora da zona de conforto

Edição 18

Com o ciclo de corte dos juros, regimes próprios aumentam alocação em multimercados e fundos de renda variável para tentar superar metas em 2018

Com o atual ciclo de corte dos juros, que derrubou a Selic para 7,5% ao ano, os regimes próprios começam a diversificar investimentos com aumento das alocações em multimercados e renda variável, especialmente em small caps. Se nos últimos dois anos, a maior parte das carteiras dos institutos ficaram alocados em fundos de renda fixa títulos públicos ou CDI, para o final de 2017 e principalmente para o próximo ano, a saída é buscar alternativas na bolsa para tentar superar as metas atuariais. “Estávamos na zona de conforto dos fundos de títulos públicos. Agora estamos mais atentos para buscar outras opções”, diz Antônio Toniello, diretor Pitanprev, o RPPS do município de Pitangueiras (SP).
Com patrimônio de R$ 66,06 milhões (dados do final de setembro), a direção do Pitanprev já decidiu ampliar a exposição aos fundos de renda variável antes da virada deste ano. Com menos de 2% dos recursos alocados em fundos de ações, o objetivo é terminar 2017 com algo entre 8% a 10% na modalidade. O instituto tem aplicações em apenas três fundos de ações que totalizam menos de R$ 1,3 milhão. “Temos uma exposição muito baixa à renda variável. Diante do cenário atual, decidimos aumentar a alocação em fundos de small caps e dividendos antes do final do ano”, revela Toniello.
O dirigente acredita que a perspectiva de corte nos juros pela autoridade monetária e pelo mercado em geral deve continuar e que, por isso, será impossível bater a meta atuarial do próximo ano com uma concentração exclusiva em fundos DI ou da família IMA. “Não conseguiremos bater a meta de 2018 se continuarmos com a concentração atual em fundos de títulos públicos”, projeta o diretor do Pitanprev. Uma das primeiras iniciativas para mudar o perfil de alocação dos recursos foi o resgate dos recursos de todos os fundos IMA-B 5+ no mês de agosto passado. “Zeramos os fundos mais longos, os IMA-B5+, e migramos para os fundos IMA B5, com menor duration”, conta Toniello.

O processo de diversificação para outras modalidades, porém, ainda não começou. O regime próprio está analisando as opções de fundos e de gestores no mercado. “De imediato estamos olhando para alguns fundos multimercados que estão com bom desempenho”, comenta o diretor do RPPS de Pitangueiras. A principal opção de diversificação deve ficar mesmo com a renda variável, contudo não deve recair sobre fundos de Ibovespa, em virtude da forte valorização já registrada pelo índice em 2017 - o Ibovespa havia registrado retorno de 23,36% atingindo 74,41 mil pontos no final de setembro. Na primeira quinzena de outubro continuou valorizando, superando os 76 mil pontos.

Mesmo com forte valorização, alguns segmentos da Bolsa, acredita Toniello, ainda têm espaço para propiciar maior retorno. É o caso das ações de small caps e de algumas companhias boas pagadoras de dividendos. Na outra ponta, o instituto analisa a opção de fundos de renda fixa com gestão mais ativa, que alguns gestores, como a Caixa Econômica, têm oferecido ultimamente. São fundos com alocação mais ativa que buscam gerar alfa com a mudança de posições de acordo a duration dos títulos.
Apesar de preparar mudanças nas carteiras ainda neste ano, o Pitanprev deve bater a meta atuarial de 2017 com folga. Até o final de agosto, o retorno global dos investimentos era de 9,90% ante uma meta de 5,50%. Em 2016, o instituto também conseguiu superar a meta atuarial, com retorno global de 17%. “Temos conseguido bater a meta nos últimos dois anos e não será diferente neste ano. O problema será bater a meta no próximo ano”, prevê Toniello.

De volta para a Bolsa – O regime próprio de Messias, município de Alagoas, também pretende alocar novos recursos nos fundos de renda variável. Atualmente, o Messiasprev não possui nenhuma alocação em fundos de ações. “Pretendemos colocar em nossa política de investimentos uma alocação de pelo menos 3% dos recursos em fundos de renda variável small caps”, diz Juliana Omena, diretora presidente do Messiasprev e membro do conselho de administração da Aneprem.
A alocação deve ser iniciada no começo do próximo ano. “A meta atuarial de 2017 está praticamente garantida com as alocações em fundos de títulos públicos. Mas para o próximo ano pretendemos voltar a diversificar”, diz a diretora. Em 2017, o Messiasprev registrava até agosto retorno de 185% da meta atuarial. Em 2016, a meta também foi superada com folga e, em 2015, o retorno global ficou em 90% da meta.


A primeira e única vez que o instituto contou com alocações em renda variável foi em 2013 e a experiência não foi boa. “O fundos que investimos registrou alta volatilidade, com vários momentos de perdas. Até o Tribunal de Contas questionou a aplicação”, lembra Juliana. Depois de oito meses, a direção do instituto resolveu resgatar a aplicação e, desde então, tem concentrado 100% dos recursos em fundos de títulos públicos. As opções ficaram restritas nos últimos quatro anos aos fundos da família IMA, CDI e IRFM, todos com gestão da Caixa Econômica.
“Temos sido bastante conservadores nos últimos anos, mas a partir do próximo ano, teremos que voltar a diversificar para fundos com maior risco. Para isso, consideramos a possibilidade de aplicar em fundos de gestores privados”, revela Juliana. Essa opção de investir em produtos de assets privadas não foi realizada ainda, segundo a dirigente, pelo tamanho do patrimônio do Messiasprev, que soma cerca de R$ 10 milhões. É um patrimônio considerado pequeno para contar com a diversificação de gestores, por isso, a concentração 100% em fundos de um único gestor.
O instituto de Messias conta com uma equipe também reduzida, de apenas três profissionais, o que dificulta a seleção e acompanhamento de uma carteira mais pulverizada entre diversos gestores. Além do dia a dia, a equipe do instituto deve dar conta das exigências do Ministério, como por exemplo, o preenchimento e envio do novo DAIR - Demonstrativo das Aplicações e Investimentos de Recursos.
Para cumprir com todas as exigências e ainda buscar bons resultados nas aplicações, a capacitação tem sido uma das preocupações ao longo dos últimos anos. A própria Caixa Econômica e a consultoria contratada pelo instituto, a Crédito e Mercado, tem realizado palestras e treinamentos com os membros da equipe do regime próprio. “Pelo fato de contarmos com uma equipe pequena, temos ainda algumas limitações para realizar uma grande diversificação dos investimentos. Mas à medida que contarmos com maior capacitação e maior patrimônio, a tendência é trabalharmos com maior número de gestores”, prevê a diretora do Messiasprev.
A própria alocação em renda variável requer maior conhecimento por parte da direção e também dos membros do conselho do instituto. “É uma opção com maior volatilidade e que não necessariamente trará um retorno no curto prazo”, comenta Juliana. Por isso, é necessário realizar um trabalho de esclarecimento com os membros dos conselhos do instituto para aprovar a política de investimentos para 2018.

Multimercados e FIDCs – O Instituto de Previdência de Garanhuns (PE) também está preparando uma nova política de investimentos para 2018 que irá contemplar maior diversificação na alocações dos investimentos. Com a atual concentração em fundos de títulos públicos, as novas aplicações devem priorizar os fundos multimercados e os FIDCs (direitos creditórios). “Com a queda dos prêmios das NTN-Bs temos que sair de fundos de títulos públicos para diversificar com outros fundos”, aponta Marcelo Marçal, diretor do Instituto de Previdência de Garanhuns.
Com patrimônio de R$ 63 milhões, o instituto já possui aplicações em um fundo multimercado da Bram (Bradesco Asset Management) e outro de BDRs da Caixa Econômica. O fundo de BDRs foi proibido para alocação de recursos de regimes próprios, porém, aqueles que já contavam com a alocação, puderam permanecer com a aplicação. “Somos um dos poucos institutos que mantém até hoje a aplicação em fundo de BDRs. É uma pena que a opção não é mais permitida para os RPPS, assim como outras alternativas para a diversificação”, reclama Marçal.
O dirigente critica a postura da subsecretaria de Previdência dos RPPS de querer restringir as opções de investimentos estruturados para os institutos. “As propostas de reduzir os limites e a variedade de aplicações para os RPPS neste cenário de queda dos juros é um absurdo”, defende Marçal. Ele acredita que as autoridades governamentais deveriam reforçar a fiscalização sobre os gestores para impedir a ocorrência de irregularidades, mas não de limitar a diversidade de fundos de investimentos.
Mesmo com as limitações, a direção do instituto de Garanhuns pretende optar pelos multimercados e FIDCs. Já os fundos de renda variável, segundo o diretor do instituto, já oferecem riscos muito altos em virtude da forte valorização registrada neste ano. “Estamos receosos com a Bolsa, pois já está lá em cima”, diz Marçal. Ele acredita que ao superar o patamar de 75 mil pontos do Ibovespa, a Bolsa passa a oferecer riscos excessivos que não vale a pena arriscar. Por outro lado, os fundos multimercados são capazes de gerar ganhos diferenciados com um nível de risco mais aceitável.
Os fundos de direitos creditórios (FIDCs) também se constituem uma opção adequada para melhores retornos com risco compatível. O problema é a proposta do Ministério de reduzir o limite de exposição dos RPPS de 15% para 5% para os FIDCs. Ele defende que os Ministério não concretize mudanças anunciadas de restringir as alocações dos RPPS em investimentos estruturados.
Na mesma linha, Antônio Toniello, diretor do Pitanprev, também critica as mudanças anunciadas até agora na Resolução 3922. “Apesar de ainda não contarmos com a decisão de investir, por exemplo, nos FIPs, somos contrários à ofensiva do Ministério contra os limites de fundos estruturados da 3922”, comenta Toniello. O dirigente revela que mais pra frente seria um passo natural, após ampliar a renda variável e multimercados, também de analisar as opções em fundos de participações (FIPs).