Gestão de recursos

Queda dos juros gera diversificação nas políticas de investimentos dos regimes próprios

Edição 16

Regimes próprios adequam suas políticas de investimentos a novo cenário de juros na casa de um dígito e melhores perspectivas para a economia real

Sete cortes seguidos na taxa básica de juro fizeram a Selic recuar para o patamar de um dígito após quase quatro anos rodando bem acima dos 10%. O cenário para os investimentos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) vem mudando em velocidade acelerada e impõe uma série de desafios para o segundo semestre deste ano e para 2018. Mudança no prazo médio das carteiras, aumento de aplicações em fundos de ações e estruturados e o início de um processo de maior diversificação de olho no ano que vem já são uma realidade no dia a dia dos gestores.
Renan Foglia Calamia, consultor da Plena Investimentos, acredita que ainda há oportunidades em fundos IMA, mas para aqueles com prazos maiores. “No segundo semestre, ainda acredito que haverá oportunidades para alguns papéis longos pós fixados, com carteiras atreladas ao IMA-B e IMA-B 5+”, diz o consultor. Ele lembra que, passado o dia do estresse geral, em 18 de maio, os IMAs se recuperaram bem mas não com o mesmo nível de retorno de antes do acirramento da crise política. “Claro que os papéis prefixados, pela certeza que representam, ficaram mais interessantes mesmo pagando um retorno menor”, diz. Na Plena, a orientação passou da manutenção de pelo menos 5% da carteira no curto prazo, para pelo menos de 15% em papéis que espelhem o CDI.
“É um colchão de segurança para um movimento claramente defensivo”, recomenda Calamia. O consultor alerta para a boa perspectiva das carteiras na renda variável, destacando a volatilidade que abre boas oportunidades de ingresso na bolsa.
Os FIPs e FIDCs seguem a mesma recomendação, mas é necessário esperar uma janela de oportunidade e ficar atento ao juro que seguirá caindo, com a consequente redução do risco destes papéis. “Em 2017, dá para bater a meta atuarial com alguma folga, mas para 2018 é outra história, lembrando que eleição do ano que vem torna tudo muito irracional”, diz Calamia.

Ações de energia – O RPPS de Rio das Ostras, município fluminense, já trabalha de olho nas dificuldades que virão em 2018. O diretor financeiro do instituto, Leonardo Rosa, participou no final de julho da FIEE - 29ª Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia e Automação, realizada em São Paulo. “Estou acompanhando o setor de energia de perto, buscando oportunidades de investimentos porque o cenário será outro daqui em diante e já começamos a nos posicionar de olho em 2018”, comenta Rosa. O dirigente conta que 2017 está muito tranquilo para o RPPS em termos de rentabilidade.
O OstrasPrev já tem na carteira um fundo de renda variável, do BTG Pactual, mas a ideia é elevar os investimentos. O mesmo em relação a um fundo de ações de dividendos, da Caixa, que receberá recursos nos próximos meses. Também com o BTG Pactual, o instituto possui participação em fundo de crédito privado.
A iniciativa, agora, é incluir na carteira um FIP ligado aos leilões de Linha de Transmissão que ocorreram nos últimos meses - um no final de 2016 e outro em abril passado. Contudo, o dirigente prefere não dar detalhes sobre a nova aplicação. “Boas oportunidades não surgem toda hora e os investimentos em transmissão são interessantes porque garantem um fluxo de pagamento constante e de longo prazo”, explica Rosa.
“Nosso portfólio vai migrar da alta concentração em dívida pública para ativos da economia real, com ganhos para todos porque, em energia, há muitas oportunidades e necessidades de investimento”, diz Rosa. Ele acredita que “em breve”, nenhum fundo com NTN-B vai bater a meta atuarial.
Hoje, o OstrasPrev tem apenas 13% dos recursos em renda variável, percentual que deve subir para 19% no ano que vem. A necessidade destacada pelo diretor de já iniciar os aportes em FIPs é por conta da característica do produto. Um fundo de empresas de transmissão, por exemplo, exigirá aportes ao longo de quatro anos, já que seguem o ritmo acordado de investimento no momento da concessão. “É um processo lento que tem de começar já, temos por exemplo fundo Florestal, de 2014 com o BTG Pactual, também nestas condições em que até agora estamos aportando”, lembra.
Em renda fixa, Rosa acredita que não tem muita mudança. O OstrasPrev começou 2017 com a carteira posicionada para pegar o movimento de corte no juro, com bons resultados. “Temos uma boa gordura para o segundo semestre, tanto que solicitamos reduzir a contribuição do município, de 15,90% para 11,18% porque estamos superavitários e com muita folga”, comenta. O problema é que o Ministério não permitiu. “Isso é muito ruim porque obriga as prefeituras, com problemas de caixa, a contribuir com um valor maior do que o necessário”, reclama Rosa.
Outro movimento no RPPS, para 2018, é uma redução na meta atuarial, em virtude de um novo patamar de juros e inflação. O tema está em estudo. Hoje, a meta é IPCA mais 6,5% e a ideia é reduzir para 5% ou 5,5% além da inflação. Até julho, o retorno dos investimentos do instituto estava 145% acima da meta atuarial, para um patrimônio perto de R$ 400 milhões.

Risco no curto prazo – Ronaldo Borges, da Mais Valia Consultoria, se diz pessimista com o cenário ainda nebuloso. “Nem mesmo sabemos quem será o presidente no final do ano, se Michel Temer ou Rodrigo Maia, o que pode gerar dificuldade para os gestores na alocação dos recursos neste segundo semestre”, explica Borges. Um dos receios é que haja um momento de elevada volatilidade nos mercados, como ocorreu na delação dos irmãos Batista e executivos da JBS, que envolveram Temer. Dados fornecidos pela Anbima confirmam o episódio como um divisor de águas, o que comprometeu parte do retorno das carteiras dos RPPS, bastante concentradas em fundos de renda fixa títulos públicos.

Até a véspera da divulgação dos áudios envolvendo o presidente, o IMA-B subia 9,6%, o IMA-B 5+ avançava 11,6%, enquanto as carteiras atreladas a IRF-M (prefixados) subiam 7,9%. No próprio dia da divulgação de informações da delação, a volatilidade fez com que as carteiras perdessem quase todo o ganho, com queda de 7,5% e 9,7% (IMA-B e IMA-B5+, respectivamente). Passado o susto, as carteiras foram se recuperando, mas abaixo do retorno que poderiam ter obtido não fosse o episódio. No acumulado do ano, até o dia 25 de julho, o IMA-B subia 7% e o IRF-M 1+ avançava 6,9%.
O risco de novidades no campo político e econômico, diz Borges, sugere uma tendência de carteiras com prazo de vencimento mais curto. “É o que nós recomendamos para os clientes. Muita cautela até para preservar o bom desempenho obtido no primeiro semestre, que se não ocorrer nada de muito ruim, já se garante a superação da meta atuarial. “A sugestão são papeis mais curtos e atrelados ao IRF-M, que reduzem o risco de alocação em fundos mais longos e, portanto, mais voláteis. Quanto aos fundos de ações, acho bem interessante porque oferecem oportunidades que surgem com o cenário atual”, diz o consultor. Os clientes da Mais Valia, na média, estão com retorno da carteira rodando a 1,6 ponto percentual acima da meta atuarial.

É o caso da IMPAS, o RPPS do município de Santa Luzia (MG), que tem uma boa gordura em termos de rentabilidade acumulada no primeiro semestre. O retorno dos investimentos do instituto está 1,18 ponto percentual acima da meta atuarial. “A questão política foi um ponto fora da curva e precisamos ver como os investimentos se comportarão, mas na certa não será tão simples como foi até agora”, comenta Cezalpino Lima, gestor de Investimentos do instituto.

No ano passado, até março, a carteira tinha 8% de fundo de ações, quando optou por desinvestir o recurso. A ideia agora é iniciar o processo de retorno para este ativo. Segundo Lima, os novos movimentos serão realizados com calma e sempre que surgirem oportunidades. O que cresceu muito na estratégia do RPPS foram os fundos estruturados, com algo perto de 20% da carteira atrelada a FIDC e FIP. “Tiveram bom comportamento no estresse de maio, sem impacto o que foi ótimo”, diz Lima, afirmando que são produtos que imunizam a carteira a episódios de volatilidade como o de maio.
Após a piora nos mercados, o IMPAS, como boa parte dos RPPS, começou a reduzir o prazo da carteira. Pelo menos 15% dos ativos foram mantidos no longo prazo. “Continuamos vendo os IMAs como opção interessante, ainda há algumas oportunidades. Esperamos também as regras para investir em ETF (Exchange Traded Fund), que podem ser interessantes”, diz o dirigente. O patrimônio do instituto é de R$ 129 milhões.